Esse é um post de Páscoa. Páscoa para mim é o dia da vida nova (o Ano Novo não tem tanto essa conotação, ultimamente). E é sobre meu feminismo, que nasceu em uma Páscoa também.
Sou filha de uma família católica. Recebi todos os sacramentos da Igreja, vou à missa com uma certa frequência (embora não semanalmente), rezo todos os dias, leio a Bíblia. Me considero uma católica praticante, embora não conservadora, desde criança, sempre apoiada pelos meus pais que, religiosos, nos incentivam muito ao questionamento.
Bater de frente com algumas normas do catolicismo é uma constante na minha vida. Já discuti na Catequese, no Crisma… meu visual gótico na adolescência sempre provocou comentários. E, atualmente, sou feminista, o que naturalmente me leva a discordar de muitas posições da Igreja (e a ser entusiasta de movimentos que lutam por mudanças, como o Diversidade católica e o Católicas pelo direito de decidir). Apesar das discordâncias, sempre repito que minha Fé nunca esteve em questão, apenas minha confiança nas normas que as pessoas tentam impor a essa Fé, que é maior.
Mas esse post não é sobre meus conflitos com o catolicismo. Esse post é sobre como o despertar do feminismo e da consciência de muitas questões sociais em mim, aconteceu através do despertar da empatia e do Amor Cristão. E sobre como me espanta pessoas ditas religiosas assumirem certas posturas.
Estava ano passado com minha família na missa do Sábado de Aleluia, véspera da Páscoa. Eu estava em um momento muito estranho da vida: namorava um cara que já tinha sido a pessoa mais próxima a mim fora da família, mas com quem ultimamente mal tinha interesse em iniciar uma conversa. Os outros campos da minha vida não me empolgavam muito também. Gostava do mestrado, do trabalho… mas nada além disso. Lembro de ter olhado no espelho por aqueles dias e de ter visto a grande e vermelha luz do piloto automático acesa no painel. Estava intrigada: sou uma pessoa enérgica e falta de entusiasmo é extremamente torturante para mim.
Me sentia fútil. Lembro de ter esquadrinhado meus pensamentos e ter achado todos rasos. Sabia que algumas coisas estavam erradas, mas o comodismo é tipo um travesseirão gostoso que você abraça para ignorar o despertador. Eu estava agarrada nele, mas tínhamos chegado a um ponto que não dava para ignorar.
E lá na missa estava sendo lido
“E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.” (Ezequiel 36: 24 até 38).
E eu fechei os olhos e pedi “Um coração de carne, meu Deus. Uma vida nova, ser uma pessoa melhor”.
Naturalmente depois daquele dia minha sensibilidade, o lado carne do meu coração, esteve no centro da minha atenção. Foi prestando atenção nela que percebi que meu namorado, um cara com muitos méritos até então, estava sendo um tremendo bullie comigo. E que eu estava deixando, e absorvendo tudo espetacularmente. Terminei, numa epifania acontecida em uma terça feira às 13hs. Peguei o telefone e fiz. Num ímpeto. Não da melhor maneira, mas da única que consegui.
Desde então passei por todas as fases. Da culpa dilacerante por ter deixado as coisas chegarem a aquele ponto (porque é culpa da mulher né?). Do medo de ser uma sabotadora de relacionamentos. Da raiva por ter me anulado. Da vontade de me mostrar bem para provar algo ao mundo. Do novo relacionamento, em que coloquei o peso épico de ser o redentor do anterior, do qual não aceitei o fim e forcei a situação até ficar extremamente chato para as duas partes. Me vi no lugar das meninas “fracas”, “tolas” que eu desprezava.
Porque é, eu era machista. Muito. Apontadora de dedo. A primeira a falar que fulana “rastejou, foi vulgar, foi babaca”. E de repente, a mulher que sofreu bullying do ex era eu. A mulher que pedia, insistia, chorava, era eu. A mulher que se infantilizava para atrair piedade, e assim, atenção, era eu. E foi percebendo isso que eu parei de julgar. E achei a tal da empatia.
Porque era só um namoro, depois dois, mas eu tinha toda a culpa e cobranças do mundo nas minhas costas. Eu me sentia horrível a cada erro, me odiava. E foi quando a carne do meu coração se revelou de verdade para mim: no mandamento amai ao próximo como a ti mesmo. Como eu ia amar ao outro, compreender, se eu soltava os cavalos da inquisição em cima de mim?
Esse princípio tão conhecido do Amor Cristão que me salvou. O não julgamento e o Amor. O exercício de me colocar no lugar do outro antes de qualquer atitude. A humildade de reconhecer minha condição humana de pecadora, errada, e tentar parar com a arrogância de julgar a mim mesma: disfarçada de desejo de ser boa, essa arrogância só me servia de aval para ser tão dura com os outros quanto era comigo. Passei a me olhar, a refletir. A conversar com minhas amigas. E assim que percebi quantas culpas da minha vida ocorriam por ser mulher e por todas as questões que isso carrega. E me aproximei do feminismo.
E adoraria falar que isso faz muito tempo e que desde então tenho sido uma mulher melhor e muito consciente. Mas a verdade é que a última vez em que agi como uma idiota completa foi domingo passado por volta das 23hs. Tem que ter humildade. E muito carinho consigo mesma, para não se torturar.
O Amor Cristão é um exercício diário. Seria muito mais simples se apegar a um conjunto de regras, como tantos “religiosos” fazem, e, ao cumpri-las, se sentir por isso perfeito e superior. É fácil viver com cartilha. O difícil é se questionar, diariamente, se a postura que você assume com o próximo é a postura que você quer para si. Se naquele momento, você gostaria de um abraço ou de um dado apontado. É aceitar a ideia de um Deus de Amor e Misericórdia, que acolhe a todos, de forma que você não é melhor que ninguém por ser mais “bonzinho”, por se colocar um rótulo de doutrina. É você se amar a ponto de ser capaz de amar alguém. Não só alguém. De amar a todos.
Foi assim que felizmente, hoje eu posso dizer que tenho meu coração de carne. Foi um processo de lágrimas e muito recolhimento. Olhar para si mesmo é muito difícil. Costumo brincar que deveria ter tido consciência de que Deus atende mesmo e pensado melhor. Mas é pura brincadeira. Nada me fez tão feliz até hoje quanto essa mudança. Meu entusiasmo está aqui, de novo comigo. E tenho uma vida nova.
Muitas vezes nós feministas somos levadas pela situação a ver a religião como inimiga. Mas minha humilde opinião pessoal é que devemos reivindicar nosso papel como seres humanos nos sistemas de crença. A maior parte das crenças prega o amor ao ser humano. Somos gente, queremos ser amadas, queremos ser tratadas com amor. Feministas religiosas, assumam sua Fé e lutem por mudanças dentro de suas comunidades. Lutem pelo amor. Mostrem que somos gente sim. Mostrem a hipocrisia da coisa toda. Isso também pode ser uma missão espiritual.
E nessa Páscoa, desejo a vida nova a todos. Por pessoas que amem mais. Feliz Páscoa!






