Meu coração de carne: sobre me tornar feminista sendo cristã (e religiosa)

Esse é um post de Páscoa. Páscoa para mim é o dia da vida nova (o Ano Novo não tem tanto essa conotação, ultimamente). E é sobre meu feminismo, que nasceu em uma Páscoa também.

Sou filha de uma família católica. Recebi todos os sacramentos da Igreja, vou à missa com uma certa frequência (embora não semanalmente), rezo todos os dias, leio a Bíblia. Me considero uma católica praticante, embora não conservadora, desde criança, sempre apoiada pelos meus pais que, religiosos, nos incentivam muito ao questionamento.

Bater de frente com algumas normas do catolicismo é uma constante na minha vida. Já discuti na Catequese, no Crisma… meu visual gótico na adolescência sempre provocou comentários. E, atualmente, sou feminista, o que naturalmente me leva a discordar de muitas posições da Igreja (e a ser entusiasta de movimentos que lutam por mudanças, como o Diversidade católica e o Católicas pelo direito de decidir). Apesar das discordâncias, sempre repito que minha Fé nunca esteve em questão, apenas minha confiança nas normas que as pessoas tentam impor a essa Fé, que é maior.

Mas esse post não é sobre meus conflitos com o catolicismo. Esse post é sobre como o despertar do feminismo e da consciência de muitas questões sociais em mim, aconteceu através do despertar da empatia e do Amor Cristão. E sobre como me espanta pessoas ditas religiosas assumirem certas posturas.

Estava ano passado com minha família na missa do Sábado de Aleluia, véspera da Páscoa. Eu estava em um momento muito estranho da vida: namorava um cara que já tinha sido a pessoa mais próxima a mim fora da família, mas com quem ultimamente mal tinha interesse em iniciar uma conversa. Os outros campos da minha vida não me empolgavam muito também. Gostava do mestrado, do trabalho… mas nada além disso. Lembro de ter olhado no espelho por aqueles dias e de ter visto a grande e vermelha luz do piloto automático acesa no painel. Estava intrigada: sou uma pessoa enérgica e falta de entusiasmo é extremamente torturante para mim.

Me sentia fútil. Lembro de ter esquadrinhado meus pensamentos e ter achado todos rasos. Sabia que algumas coisas estavam erradas, mas o comodismo é tipo um travesseirão gostoso que você abraça para ignorar o despertador. Eu estava agarrada nele, mas tínhamos chegado a um ponto que não dava para ignorar.

E lá na missa estava sendo lido

“E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.” (Ezequiel 36: 24 até 38).

E eu fechei os olhos e pedi “Um coração de carne, meu Deus. Uma vida nova, ser uma pessoa melhor”.

Naturalmente depois daquele dia minha sensibilidade, o lado carne do meu coração, esteve no centro da minha atenção. Foi prestando atenção nela que percebi que meu namorado, um cara com muitos méritos até então, estava sendo um tremendo bullie comigo. E que eu estava deixando, e absorvendo tudo espetacularmente. Terminei, numa epifania acontecida em uma terça feira às 13hs. Peguei o telefone e fiz. Num ímpeto. Não da melhor maneira, mas da única que consegui.

Desde então passei por todas as fases. Da culpa dilacerante por ter deixado as coisas chegarem a aquele ponto (porque é culpa da mulher né?). Do medo de ser uma sabotadora de relacionamentos. Da raiva por ter me anulado. Da vontade de me mostrar bem para provar algo ao mundo. Do novo relacionamento, em que coloquei o peso épico de ser o redentor do anterior, do qual não aceitei o fim e forcei a situação até ficar extremamente chato para as duas partes. Me vi no lugar das meninas “fracas”, “tolas” que eu desprezava.

Porque é, eu era machista. Muito. Apontadora de dedo. A primeira a falar que fulana “rastejou, foi vulgar, foi babaca”. E de repente, a mulher que sofreu bullying do ex era eu. A mulher que pedia, insistia, chorava, era eu. A mulher que se infantilizava para atrair piedade, e assim, atenção, era eu. E foi percebendo isso que eu parei de julgar. E achei a tal da empatia.

Porque era só um namoro, depois dois, mas eu tinha toda a culpa e cobranças do mundo nas minhas costas. Eu me sentia horrível a cada erro, me odiava. E foi quando a carne do meu coração se revelou de verdade para mim: no mandamento amai ao próximo como a ti mesmo. Como eu ia amar ao outro, compreender, se eu soltava os cavalos da inquisição em cima de mim?

Esse princípio tão conhecido do Amor Cristão que me salvou. O não julgamento e o Amor. O exercício de me colocar no lugar do outro antes de qualquer atitude. A humildade de reconhecer minha condição humana de pecadora, errada, e tentar parar com a arrogância de julgar a mim mesma: disfarçada de desejo de ser boa, essa arrogância só me servia de aval para ser tão dura com os outros quanto era comigo. Passei a me olhar, a refletir. A conversar com minhas amigas. E assim que percebi quantas culpas da minha vida ocorriam por ser mulher e por todas as questões que isso carrega. E me aproximei do feminismo.

E adoraria falar que isso faz muito tempo e que desde então tenho sido uma mulher melhor e muito consciente. Mas a verdade é que a última vez em que agi como uma idiota completa foi domingo passado por volta das 23hs. Tem que ter humildade. E muito carinho consigo mesma, para não se torturar.

O Amor Cristão é um exercício diário. Seria muito mais simples se apegar a um conjunto de regras, como tantos “religiosos” fazem, e, ao cumpri-las, se sentir por isso perfeito e superior. É fácil viver com cartilha. O difícil é se questionar, diariamente, se a postura que você assume com o próximo é a postura que você quer para si. Se naquele momento, você gostaria de um abraço ou de um dado apontado. É aceitar a ideia de um Deus de Amor e Misericórdia, que acolhe a todos, de forma que você não é melhor que ninguém por ser mais “bonzinho”, por se colocar um rótulo de doutrina. É você se amar a ponto de ser capaz de amar alguém. Não só alguém. De amar a todos.

Foi assim que felizmente, hoje eu posso dizer que tenho meu coração de carne. Foi um processo de lágrimas e muito recolhimento. Olhar para si mesmo é muito difícil. Costumo brincar que deveria ter tido consciência de que Deus atende mesmo e pensado melhor. Mas é pura brincadeira. Nada me fez tão feliz até hoje quanto essa mudança. Meu entusiasmo está aqui, de novo comigo. E tenho uma vida nova.

Muitas vezes nós feministas somos levadas pela situação a ver a religião como inimiga. Mas minha humilde opinião pessoal é que devemos reivindicar nosso papel como seres humanos nos sistemas de crença. A maior parte das crenças prega o amor ao ser humano. Somos gente, queremos ser amadas, queremos ser tratadas com amor. Feministas religiosas, assumam sua Fé e lutem por mudanças dentro de suas comunidades. Lutem pelo amor. Mostrem que somos gente sim. Mostrem a hipocrisia da coisa toda. Isso também pode ser uma missão espiritual.

E nessa Páscoa, desejo a vida nova a todos. Por pessoas que amem mais. Feliz Páscoa!

Amando as mulheres, mas sendo como um homem

Eu ia escrever um post sobre o incrível “Precisamos falar sobre o Kevin“, mas é um desses filmes que precisam ser digeridos. Aí aconteceu de eu assistir “Os homens que não amavam as mulheres” esse final de semana, e acabou que achei mais fácil ter algo para falar sobre ele primeiro. Então, vamos lá.

Primeiramente, antes que eu seja acusada de mau-humor, ranhetice, cri-crizice e falta de amor no coração (não me defendo das três primeiras acusações), vou dar meu parecer de cinéfila só, sem feminismo: é um filme divertido, atraente, que vale a ida ao cinema. Não vai salvar o mundo nem tornar ninguém mais inteligente, mas passa um tempo agradável. Até me permitirei dois comentários de “menininha”, um diretamente ligado ao filme e outro não:

1- Quero TODAS as roupas da Lisbeth Salander. Principalmente a camiseta escrita “Fuck you you fucking fuck”

2- Trent Reznor arrasou na trilha. Como fã do Nine Inch Nails eu nunca perco uma chance de me declarar ao moço: te amo Trent. Espero com os olhos brilhantes e flores no cabelo. Me liga. E canta “Hurt”.

Ok, agora vamos ao feminismo:

Acho muito legal um filme sobre misoginia nas proporções de “Os homens que não amavam as mulheres”. Tem elenco de peso, diretor consagrado, é sucesso de bilheteria, enfim, tem visibilidade. É legal porque sinto que, apesar de misoginia ser algo muito forte na nossa cultura, as pessoas têm muita dificuldade de reconhecer e nomear comportamentos misóginos.  Isso ficou bem evidente para mim ontem, na saída do cinema, quando um grupo de amigas falava ter detestado o título em português do filme (em inglês é “The girl with the dragon tattoo”) por não ter “nada a ver”. Eu e minha housemate rimos, porque achamos a clareza literal do título em português muito legal. O filme é sobre isso: homens que odiavam mulheres, misóginos violentos. Se não fica clara a relação entre o comportamento dos personagens masculinos e o título do filme, tem algo muito errado aí.

A misoginia permeia toda a narrativa, que no início se desenvolve simultaneamente em torno dos dois personagens principais: o jornalista desacreditado Mikael Blomkvist e a hacker antissocial Lisbeth Salander. Ele pesquisa o desaparecimento de uma garota, crime que parece estar relacionado a um assassino em série de mulheres. Ela é repetidamente estuprada por um tutor abusivo, que só lhe entrega dinheiro para as necessidades mais básicas (é gente, comida) após violentá-la. Em um momento do filme, as histórias se unem, quando Mikael procura Lisbeth para ajudá-lo em suas investigações. Fica claro que a garota, motivada pela própria história difícil, vai tomar o caso como algo pessoal, e mover mundos e fundos para a sua solução, com uma morbidez obstinada na medida para combinar com as tatuagens e o cabelo moderninho.

Eu quero falar sobre Lisbeth. Ela é a representante do feminino na tela, a vingadora do nosso sexo, a mulher forte que de vítima se torna ameaça. Cativa imediatamente, impossível não se identificar com a raiva e humilhação que a garota remói. Eu vibrei muito com a cena da vingança contra o tutor, até porque ainda vibro muito com essa cena aqui. Mas, a perguntinha chata, que ficou na minha cabeça durante o filme todo: porque a Lisbeth tem que ser tão masculinizada? E olha que eu não sou nada apegada a estereótipos de gênero (tenho uma grande preguiça deles na realidade), mas parece que a ideia de “Os homens que não amavam as mulheres” é se esmerar em criar uma heroína incrível que, para ser incrível, age da forma menos próxima a das mulheres reais possível.

(A crítica do site Omelete, que pode ser lida aqui, aborda também essa “masculinização” da Lisbeth, citando cenas e tudo o mais)

Antes que seja acusada de ser a feminazi louca que vê pelo em ovo, adianto que não acho que isso seja, por si só, misoginia, e nem quero queimar o David Fincher com tochas e arados. Pelo contrário, acho interessante demais que Lisbeth seja como é: é sintomático. Para reagir em uma sociedade tão hostil ao feminino, ela teve que se endurecer, aprender a jogar com as armas dos homens, e sem renunciar à sua identificação com o gênero feminino (ela ainda faz questão de investigar um assassino de mulheres assim que ele é nomeado dessa forma). E por outro lado, dá até um certo alívio (mentira, dá um GRANDE alívio) ver uma heroína que consegue ser combativa e bem-sucedida sem os peitos pulando em um maiô de vinil e um cabelinho que não despenteia nem sob um furacão. Lisbeth faz tudo o que uma heroína-sexy-padrão não faria: é fora dos padrões tradicionais de beleza voluntariamente (afinal, a aparência exótica é escolhida e moldada por ela), transa com uma mulher, é hostil ao sexo oposto (a todo mundo, na verdade), e mesmo assim, quando se torna uma espécie de par romântico de Mikael (mais uma vez, agindo da forma que podemos entender como clichê da atitude masculina na paquera: toma a iniciativa incisivamente e trata o sexo com absoluta casualidade e distanciamento) ela vira uma personagem atraente e fascinante no sentido erótico. Lisbeth não escapa ao clichê do sexy que parecem amargar todas as heroínas de filmes de suspense/ação, mas pelo menos entra no clichê com muito estilo próprio. É uma alternativa.

O triste é que Lisbeth me fez pensar muito nessa foto de Cindy Sherman, fotógrafa norte-americana que admiro muito:

É um auto retrato de Cindy, travestida como homem renascentista. Notem como ela exibe hematomas no rosto: é uma mulher que, para ser aceita em um mundo masculino e assim ser considerada digna da representação, se traveste de homem, e se fere no processo (pois tem que renunciar a algo dela, moldar uma defesa, que não existiria sem a agressão). Em artigo de meu ex-professor Mauricius Farina

Cindy Sherman (também atriz e modelo) está representada nesta cena em que a própria representação é simulada. A fotografia simula a pintura, o modelo simula o homem renascentista.”

“Quando Sherman se expõe, não é a si própria que expõe, mas, numa esfera pública, a submissão da mulher como um fetiche através de sua auto-expressão.”

Lisbeth para mim é essa mulher encarnada por Cindy Sherman: ferida e disfarçada. Não lamento o travestir-se: acredito mesmo que as distinções de gênero são muito mais culturais do que as pessoas estão dispostas a ver. Mas lamento as feridas.

E para comentar o aspecto que realmente me incomodou na Lisbeth: minha amiga Julia me chamou a atenção que Lisbeth só pode ser Lisbeth porque é insana mentalmente. Mais ou menos nas palavras dela “Se ela fosse um homem, seria um justiceiro, um homem de bem, alguém que está vingando os valores da sociedade. Mas sendo mulher, é uma maluca perigosa e descontrolada. Ela é o desvio, mesmo que a raiva seja justa. Porque o ‘normal’ é a mulher submeter-se, o homem não”.

Lisbeth só pode vingar as mulheres, ao que parece, se agir como se espera de um homem, e for maluca. A “normalidade” feminina não permite que nos vinguemos. Esse é o mundo que não ama as mulheres.

Homem é assim mesmo o …

Não assisto ao BBB. Sou drama queen, gosto de ficção rasgada, gritos teatrais, cores vibrantes e raios laser, e por isso a tal “realidade” do programa não me instiga. Sou como Blanche Dubois “quero magia, magia!”. Por isso, não vou comentar do caso do “suposto” (pelo que vi no You Tube, evidente) abuso sexual que ocorreu no programa. Não acompanhei e já foi exaustivamente discutido. Vou comentar a reação, que tive o desprazer de acompanhar bem.

“Mas ela queria o quê? Homem é assim mesmo!”. “Deu mole, o cara abusa, qualquer homem faria isso”. “Ela gostou e ele não perdeu a chance”. E claro, não poderia faltar a minha predileta: “Ela não tem o direito de reclamar. Se estava incosciente, aceitou o que poderia acontecer!”. Pois é, ela não tem o direito: é só o corpo dela que está sendo tocado sem sua autorização. Quer dizer, eu fico enfurecida se algum cara me toca para dar bom dia com mais intimidade do que sinalizei que gostaria, mas eu sou um tantinho neurótica mesmo, mea culpa.

Sinceramente, só posso torcer para que essa gente não seja abusada se um dia precisar fazer uma cirurgia. Porque se aceitou ser anestesiado, tem que aceitar o que pode acontecer né? Cuidem da saúde, amiguinhos.

E seguindo essa lógica absolutamente encantadora, estar no mundo sob risco iminente de estupro é a “normalidade”. Se acontecer com você, já dizia a Xuxa (não a verde) que bobeou dançou. A vida é dura. O que foi? Você esperava que o homem fosse bonzinho e não te estuprasse? Que isso amiga: homens são tipo zumbis do George Romero, só que falando “vagiiiiiiiiiiiinas” ao invés de “cérebros”.

Sério caras, é assim mesmo que vocês querem que o mundo os veja? Está legal essa cultura de estupro para vocês? Porque eu sou um tipo idealista, meio poliana, e por isso me recuso a ver os homens com quem convivo como estupradores incontroláveis em potencial. Vejo como seres humanos dotados de livre arbítrio que sabem muito bem a diferença entre um ato criminoso e um consentido. E que são capazes de decidir pela coisa certa.

Eu fico estarrecida em como já internalizamos a figura do homem como um animal babão e voraz em eterna busca de um buraco para se enfiar. Nós, as mulheres, que temos que nos defender: usarmos nossas roupas como equivalentes contemporâneos da armadura medieval (máxima cobertura para mínima chance de ataque), e vivermos em eterno espírito de escoteiras: “sempre alertas!” (mas sem a saia de prega e a meia 3/4 porque, se analisarmos bem as vitrines de sex shop por aí, pode dar problema). A responsabilidade sobre nossos corpos é nossa, o controle sobre eles não. Nem o controle sobre a vontade masculina: essa, pelos comentários que andei lendo, não é nem deles, pobrezinhos, que homem vai respeitar uma gostosa bêbada na cama? Eles não são capazes.

E chegamos a pérolas como essa imagem:

Se ele quer sexo com você, mesmo que você não queira, isso é bom. Pare de reclamar e viva para agradá-lo, mulé. Fecha a boca e abre as pernas.

Eu pergunto aos machistas, e às senhoritas validadoras de plantão, ao pessoalzinho de dedo em riste na cara da mocinha que bebeu e foi abusada: é nesse modelo de mundo em que vocês vivem? Homens, sem ética e controle, mulheres sem vontade e sossego, salve-se quem puder? Esse é o “normal” que vocês defendem tanto nas redes sociais?

Desculpem a franqueza então: o mundo de vocês é uma bela merda, e eu não quero nada com ele. Mas a Emilie Autumn deu umas dicas úteis pra quem faz tanta questão da cultura de estupro. Compartilho.

“If you want to be safe, walk in the middle of the street. I’m not joking. You’ve been told to look both ways before crossing the street, and the sidewalk is your friend, right? Wrong. I’ve spent years walking sidewalks at night. I’ve looked around me when it was dark, when there were men following me, creeping out of alleyways, attempting to goad me into speaking to them and shouting obscenities at me when I wouldn’t, and I suddenly realised that the only place left to go was the middle of street. But why would I risk it? Because the odds are in my favour. In the States, someone is killed in a car accident on average every 12.5 minutes, while someone is raped on average every 2.5 minutes. Even when factoring in that, one, I am generously including ALL car-related accidents and not just those involving accidents, and two, that the vast majorities of rapes still go unreported […] And, thus, this is now the way I live my life: out in the open, in the middle of everything, because the middle of the street is actually the safest place to walk” Emilie Autumn, The Asylum for Wayward Victorian Girls

(Só uma nota de fangirl patética: estava na grade do show e meu livro é autografado, risos.)

Caminhem no meio da rua. E mantenham-se acordados. Só isso.

 

Não sei se tu me amas, pra que tu me seduz?

Eu gosto muito de memes. Não a ponto de passar o dia inteiro compartilhando no facebook e entulhando a timeline dos meus amiguinhos (é gente, é indireta sim), mas confesso que tenho uma trollface colada no meu computador de trabalho, dividindo espaço na baia com uma toy art da Hello Kitty pintada como um morango e um bonequinho do Homer Simpson… enfim, eu gosto de memes. Eu acho genial como eles viraram uma linguagem visual para que pessoas comuns narrem situações engraçadas (e pouco mainstream) do cotidiano. Eu sempre tem coisas que leio e digo “É! É isso mesmo!”

E como eu digo “é isso mesmo!” mais gente diz “é isso mesmo!” e o seu “é isso mesmo!” não é necessariamente o meu “é isso mesmo!”, e aí como saberemos se é isso mesmo? Eu pensei nisso após ver alguns memes em historinhas sobre a famosa “friendzone” (pelo que entendi, um porão cheio de ossadas de aventureiros desprevenidos, para onde você vai depois que é rejeitado romanticamente por um amigo/amiga/professor de artes/bot de conversa no MSN). Porque enquanto homens e mulheres concordavam com as piadas, eu só pude sentir um arrepio na espinha e relembrar a história da minha vida. Recomendo que solte a música triste abaixo e me acompanhe.

Eu sempre fui a garota com amigos meninos. Eu gosto de videogame, HQ, anime de luta, bandas de metal, um monte de coisa considerada “de menino” (mesmo que um monte de meninas gostem disso também). Sendo assim, desde a 4ª série quando meu BFF era o carinha que sabia todos os fatalities de Mortal Kombat (e os babalities também!), pelo menos 60% dos meus amigos mais próximos são homens.

É muito legal a maior parte das vezes e não tenho o que reclamar da minha turma (tá, eu tenho: odeio papo de futebol. Acho chato mesmo. Mas tolero porque sei que eles também não curtem quando eu começo a falar de Jane Austen, e mesmo assim me ouvem pacientemente). Mas já vivi uns episódios muito desconfortáveis com essa história de friendzone. Porque com exceção de casos em que a mulher provoca o cara propositalmente e cria situações só pra massagear o próprio ego dando um fora amigável (comportamento que eu acho EXTREMAMENTE condenável e chamo de Complexo de Diva), dizer para um amigo seu que você não está interessada nele é uma situação horrível, constrangedora e muito desconfortável. Eu fico TRISTE quando um deles aparece com ar solene dizendo que “tem que me contar uma coisa”.  Além de ser triste:é muito raro a amizade voltar a ser o que era.

E é raro principalmente pelo grande fator irritante, desrespeitoso e machista nessa história de friendzone: quando seu amigo acha que, por ter sido seu amigo, o cara legal, o cara presente, ele automaticamente merece que você se apaixone por ele. E que você é um ser humano desprezível se não o fizer.

E se não estivermos interessadas, o que devemos dizer? "Obrigada oh meu salvador dos cafajestes, não sinto a menor atração por você mas deixe-me lamber sua sola em gratidão pela graça extrema do seu afeto"?

Homens entendam: uma relação de amizade é uma relação, a princípio, desinteressada (principalmente no sentido afetivo/sexual). Uma mulher não te deve nada, por ser sua amiga, além da lealdade natural de amiga. Ela não é obrigada a retribuir seu afeto automaticamente porque você a ouviu, a apoiou, carregou os livros dela e pagou uma cerveja. No máximo, se espera que ela o ouça, apoie, carregue seus livros e te pague uma cerveja. Como disse essa garota nesse excelente post: “Showing interest in me, being friendly with me, getting close to me, or eating a meal with me (even if they paid for it) doesn’t obligate me to open my heart or my legs”.

E nós também somos rejeitadas viu? Também ouvimos “funcionamos melhor como amigos” e “não estou pronto para um relacionamento” e tudo o mais. Só que nós somos levadas a pensar que: 1- tomamos um fora porque merecemos, não somos atraentes, fomos grudentas, fomos, somos, fomos, somos, fomos… 2- acontece, o sujeito não é obrigado a gostar de mim. E sim: acontece, o sujeito não é obrigado a gostar de mim, recomendo música triste e seguir em frente. Solta a outra música triste.

(Eu sei também que tem uma tipo de mulher que fala que é porque homem é tudo cafajeste e só quer as vadias. Desconsidere: essas mulheres geralmente têm baixa auto estima e gostam de atacar suas semelhantes com termos sexistas para se elevarem rebaixando a outra. Em muitos casos, queriam ter a liberdade das “vadias” mas temem o julgamento alheio. Ou seja: são tão vítimas do machismo quanto as rotuladas como “vadias”.)

Quando sair para jantar com uma mulher e ela não quiser te ver de novo, aceite a liberdade de decisão dela e não saia espalhando que ela é uma vadia aproveitadora. Quando oferecer sua amizade a uma mulher, não pense que ela te deve o mundo em troca. E nada de vir se fazendo de “amigo desinteressado” (aham mocinho, nós percebemos) já cheio de terceiras intenções só para depois sair batendo no peito que é o “cara legal, sempre ali, fiel, justo” que foi deixado na friendzone.

E aliás esquecem esse termo “friendzone”. Nós mulheres não somos dragões acumuladores de tesouros que criam uma zona de “limbo sentimental” para estocar homens inocentes que manifestaram interesse amoroso em nossas magnânimas pessoas e foram rejeitados para prazer e elevação do nosso ego. Nós somos seres humanos comuns, que amam algumas pessoas como amigos e outras como namorad@s, parceir@s, e tudo o mais. Quando queremos ser amigas, somos amigas. Quando queremos ser parceiras, somos parceiras. A vida é simples pessoal. Solta a música feliz.

Princesas culpadas

Mulheres sentem culpa. Tudo bem, qualquer ser humano é capaz de sentir culpa (eu espero). Mas tenho notado o quanto a culpa é presente no mundo feminino cada vez que converso com uma amiga sobre coisas da vida. Em algum momento sempre chegamos na esmagadora sensação de fracasso e frustração que experimentamos a cada microcoisinha que dá errado em nossas vidas.

Não falo da culpa geral que todo mundo sente (eu espero [2]) quando chuta o cachorro, twitta piada preconceituosa ou instala o Windows 7.Eu tenho percebido nas mulheres um tipo de culpa que envolve a responsabilidade por tudo que acontece fora do previsto em suas vidas, coisas que elas simplesmente não podiam evitar. Uma enorme sensação de fracasso por falhar em controlar o incontrolável.

É engraçado como a educação feminina é contraditória (e sobre isso recomendo o livro Complexo de Cinderela, da Colette Dowling). Ao mesmo tempo que aprendemos que meninas são seres delicados, que devem evitar se expor ao perigo e às brincadeiras que sujam os joelhos e despenteiam os cabelos, também aprendemos que devemos ser responsáveis, sensatas e maternais, um oásis de força e cuidados para as pessoas próximas (mas sempre com uma boa dose de sentimentalismo para que possamos ser acusadas de “irracionalidade feminina” quando expomos nossos sentimentos).

Meninas crescem ouvindo histórias de princesas que beijam sapos, amam feras, suportam pacientemente maridos abusivos (Grisélidis, do Charles Perrault, é particularmente assustador), e assim transformam coisas feias e más em belas e boas.

Somos levadas a pensar que nosso amor, nossa doçura e nossos cuidados são capazes de mudar o mundo. Que basta sermos presentes, fofas e cuidadosas, que tudo dará certo.

Só que não. Já ouvi e vivenciei muitas vezes o “Conto da menina abnegada que beijou o sapo e… beijou um sapo”. Não só no amor. É comum mulheres aguentarem coisas muito ruins para elas em nome do bem-estar universal, esperando com isso receber o sonhado final feliz. Esse tipo de abnegação é ensinado como um “valor feminino”. E quando nossa dedicação incansável não salva o dia, bate a culpa. Aquela, do começo do texto. Como essa força renovadora feita de doçura, submissão e desprendimento não foi capaz de mudar tudo, substituir os problemas por uma chuva de glitter e um coral de pôneis? Só pode ter sido culpa nossa! Não fomos boas o suficiente, falhamos, nosso amor não é o “amor verdadeiro”, aquele que transforma o sapo em príncipe. E raramente pensamos em como nos sentimos no desenrolar do nosso conto.

Em algum momento da vida muitas de nós percebem que não é preciso carregar o mundo nas costas (pôxa gente, já que somos o sexo frágil, vamos facilitar né?). Mas o comum é que essa descoberta aconteça por cansaço depois de muitas e muitas noites perguntando: o que deu errado? Não fui dedicada o suficiente? Não fui compreensiva? Não fui “feminina”? Não fui a grande mãe protetora do meu ambiente? E demora tanto essa coisa de perguntar “não fui?” antes de passar a afirmar “eu senti”…

Acho, mas é só uma opinião, que precisamos de alguns contos de fada novos, em que a princesa seja heroína de uma forma diferente. Sabe, sem essa coisa do amor verdadeiro que salva o mundo, essa força que só surge quando a princesa se anula ao máximo. Ela podia matar o dragão, plantar uns feijões… que tal? Se der errado, poderia alegar armas ruins e condições climáticas desforáveis, não aquela angustiante falha de sentimentos que a torna menos mulher, menos capaz.

Até fecho com uma sugestãozinha ” Então, a princesa beijou o sapo, e nada aconteceu. Ela percebeu que não devia ter hospedado o anfíbio contra sua vontade, e prometeu que da próxima vez ia desencanar da bola de ouro e ir ler um livro. E foi feliz para sempre”.

 

Super combo café da manhã

Hoje, aproveitando os últimos dias do meu recesso de fim de ano, saí da cama bem mais tarde do que deveria, me dirigi cambaleando até o banheiro, depois cambaleando menos até a mesa de jantar, para iniciar meu antigo ritual de ler o jornal enquanto bebo café. Aí me deparo com essa primeira página. Vem gente!

Café da manhã

Bem, temos um sujeito de 27 anos ameaçando a mãe de morte porque o jantar não estava pronto na hora. Segundo o Jornal de Nova Odessa (minha cidade natal onde estou curtindo a folguinha)  ”Um rapaz de 27 anos ameaçou matar a mãe depois de chegar em casa irritado e perceber que o jantar ainda não estava pronto.” Pobrezinho! Onde já se viu chegar em casa depois de um dia ruim e não ter comidinha? Ao que parece, para esse moço faz todo o sentido ameaçar a mãe por isso.

E essa história tenebrosa sobre a garota de 15 anos, cadeirante, estuprada, ao que diz o jornal, por um antigo amigo da família? Bem, dizem as estatísticas que estupro é praticado com mais frequência por conhecidos da vítima. Pelo visto, para muitos homens conviver com a mulher não cria empatia a ponto de a tal ser considerada muito mais que um buraco para uso sexual. Se não puder se defender então… Ah, e claro, é melhor que saiba cozinhar. Na hora certa.

E dizem que o feminismo não é mais necessário. Não é o que diz o jornal.

Estão me chamando de implicante

Na verdade, nunca havia pensado seriamente em feminismo, até o ano passado. Eu sempre tive muita convicção na ideia de que as pessoas são iguais e devem ser respeitadas, só por serem pessoas (na verdade, só por existirem, enfim, também acho que os animais devem ser respeitados). Quem é mulher cresce ouvindo brincadeiras do tipo “lugar de mulher é na pia”, mas a gente tem uma criação muitas vezes otimista e acha de verdade que esse tipo de coisa é só piadinha padrão de interação social, aquela provocação jocosa da rodinha de amigos que nunca vai ter consequências na sua vida porque né, a Idade Média acabou faz um tempinho já.

Mas aí eu cresci, aquele período alegria-disneylândia chamado “faculdade” acabou, fui trabalhar e morar em outra cidade, longe dos meus pais intelectuais e artísticos, da minha criação leve e irônica e dos meus antigos amigos ativistas de qualquer causa. E coisas estranhas começaram a acontecer. Coisas muito estranhas.

Teve um dia que, ao reclamar do tratamento injusto que recebi em uma situação, ouvi um “é que a pessoa X não gosta de mulheres”. Não gosta de metade da humanidade? Uau, me parece um tanto difícil de viver… mas foi só o começo. Teve o cara que me difamou para os amigos (inclusive os meus) porque muito educadamente disse que não estava interessada nele. Teve o ex que disse que se incomodava muito com o fato de que ganho mais que ele (e depois me acusou de “me achar superior” por estar no mestrado enquanto ele ainda não havia iniciado a graduação). Teve a fulana que comentou que sou “meio machinha” por gostar de The Distillers, uma banda punk de vocal feminino, veja só. Um monte de sandices. Não vou esgotar o repertório agora.

Eu só queria gritar “MACHISMO! SEXISMO! ACHISMO! CHAMEM OS GUARDAS (que lógico, são homens, senão quem eles iam proteger?)”. Eu gritei, algumas vezes. E fui acusada novamente, dessa vez de ser implicante e “ver coisa onde não tem”.

Eu não me sinto em condições de fazer grandes e acadêmicas dissertações sobre o machismo, a vida, o universo e tudo o mais, porque sinto que não tenho repertório para isso. Meu campo de estudos é arte digital, sou leitora ocasional de sociologia, por prazer, e uma feminista muito recente. Mas é uma questão que me incomoda a ponto de sentir que tenho obrigação de encher os ouvidos (e olhos) de alguém com ela.

Então resolvi criar esse blog, pra contar pro Brasil que ser mulher, é, ainda e por tempo indefinido, uma tremenda aventura em um mundo que não nos pertence. Quero dividir as situações para meus possíveis leitores avaliarem se estou vendo coisa ou não. E sério, nada me deixaria mais feliz do que perceber que estou delirando.